Verdadeiras Emoções Espirituais (1) – Jonathan Edwards

I. Emoções espirituais surgem de influências espirituais,sobrenaturais e divinas no coração

O Novo Testamento chama os cristãos de pessoas espirituais, contrapondo-os às pessoas meramente naturais. “Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las porque elas se discernem espiritualmente. Porém o homem espiritual julga todas as coisas, mas ele mesmo não é julgado por ninguém” (I Co. 2:14-15). Faz também contraposição entre pessoas espirituais e carnais: “Eu, porém, irmãos, não vos pude falar como a espirituais; e, sim, como a carnais, como a crianças em Cristo”, isto é, aqueles que eram em grande parte não santificados. (I Co. 3:1). Os vocábulos “natural” e “carnal” nesses versículos significam não santificados, sem o Espírito; “espiritual”, então, significa santificado pelo Espírito Santo.

heartAssim como as Escrituras chamam os cristãos de espirituais, encontramo-las também descrevendo certas qualidades e princípios do mesmo modo. Lemos sobre um “pendor espiritual” (Rom. 8:6-7), “compreensão espiritual” (Cl 1:9), e “bênçãos espirituais” (Ef. 1:3).

O termo “espiritual” em todos esses versículos não se refere ao espírito do homem. Uma qualidade não é espiritual somente por existir no espírito do homem, e não no seu corpo. As Escrituras chamam a algumas qualidades “carnais” ou da carne, mesmo que existam no espírito do homem. Por exemplo, Paulo descreve o orgulho, auto-confiança e confiança na própria sabedoria como carnais (Col. 2:18), embora essas qualidades existam no espírito do homem.

O Novo Testamento usa o termo “espiritual” para se referir ao Espírito Santo, a terceira Pessoa da Trindade. Cristãos são espirituais por terem nascido do Espírito de Deus e porque o Espírito vive neles. Coisas são espirituais por sua relação com o Espírito Santo – “Disto também falamos, não em palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas ensinadas pelo Espírito, conferindo coisas espirituais como espirituais. Ora o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus.” (I Cor. 2:13-14).

Deus dá Seu Espírito aos verdadeiros cristãos para viver neles e influenciar seus corações como uma fonte de vida e ação. Paulo diz que os cristãos vivem porque Cristo vive neles (Gal. 2:20). Cristo, por Seu Espírito, não só está neles, mas vive neles; vivem por Sua vida. Os cristãos não só bebem da água da vida, porém essa água da vida se torna uma fonte em suas almas, jorram em vida espiritual eterna. (Jo. 4:14). A seiva da verdadeira vinha não flui dentro deles como num cálice, mas em galhos vivos, onde a seiva se torna uma fonte de vida (Jo. 15:5). Assim, as Escrituras chamam os cristãos de “espirituais” porque Deus une Seu Espírito a eles desse modo.

O Espírito de Deus pode influenciar os homens naturais, e efetivamente o faz; veja Num. 24:2; I Sm. 10:10; Hb. 6:4-6. Nesses casos, entretanto, Deus não dá do Seu Espírito como uma fonte de vida espiritual. Não há união entre o Espírito de Deus e o homem natural. Posso ilustrar isso da seguinte forma: a luz pode brilhar num objeto muito escuro e negro, todavia se não fizer com que o próprio objeto dê luz, ninguém vai chamá-lo de objeto brilhante. Assim, quando o Espírito de Deus opera somente sobre a alma, sem se transformar em vida nela, aquela alma não tem se tornado espiritual.

A principal razão para que as Escrituras chamem os cristãos e suas virtudes de “espirituais” é a seguinte: o Espírito Santo produz nos cristãos resultados que se harmonizam com a verdadeira natureza do próprio Espírito.

Santidade é a natureza do Espírito de Deus, portanto, as Escrituras chamam-nO de Espírito Santo. Santidade é a beleza e doçura da natureza divina e a essência do Espírito Santo, assim como o calor é a natureza do fogo. Este Espírito Santo vive nos corações dos cristãos como uma fonte de vida, agindo neles e dando de Si mesmo a eles em Sua doce e divina natureza de santidade. Ele leva a alma a partilhar da beleza espiritual de Deus e da alegria de Cristo, de modo que os crentes associem-se com o Pai e com o Filho, pela participação no Espírito Santo. Assim, a vida espiritual nos corações dos crentes é igual em natureza à própria santidade de Deus, embora em grau infinitamente menor. E como o sol brilhando num diamante. O brilho do diamante é igual em natureza ao brilho do sol, mas em grau menor. E isso que Cristo quer dizer, em Jo. 3:6: “o que é nascido do Espírito, é espírito.” A nova natureza criada pelo Espírito Santo é da mesma natureza do Espírito que a criou; assim, as Escrituras chamam-na de natureza espiritual.

O Espírito opera dessa forma somente nos verdadeiros cristãos. Judas descreve ossafe_image homens de mente mundana como os “que não têm o Espírito” (Jd. 19). Paulo diz que somente os verdadeiros cristãos têm o Espírito Santo neles; e “se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dEle” (Rom. 8:9). Ter o Espírito Santo é sinal certo de estar em Cristo, de acordo com João: “Nisto conhecemos que estamos nele, e ele em nós, pois que nos deu do seu Espírito” (I Jo. 4:13). Em contraste, um homem natural não tem experiência de coisas espirituais; falar delas é tolice para ele, pois não sabe o que significa. “Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las porque elas se discernem espiritualmente” (I Cor. 2:14). Jesus mesmo ensinou que o mundo incrédulo não conhece o Espírito Santo: “o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece” (Jo. 14:17).

E claro, portanto, que os efeitos produzidos pelo Espírito Santo nos verdadeiros cristãos são diferentes de qualquer coisa que o homem possa produzir pelo poderes humanos naturais. É isso que eu quis dizer ao afirmar que as emoções espirituais verdadeiras surgem de influências sobrenaturais.

Disso se segue que os cristãos têm uma nova percepção ou concepção interna em suas mentes, totalmente diferente em natureza de qualquer outra coisa que tenham experimentado antes de serem convertidos. É, por assim dizer, um novo sentido espiritual para coisas espirituais. Esse sentido é diferente de qualquer sentido natural, assim como o sentido do paladar é diferente dos sentidos de visão, audição, olfato, e tato. Por esse novo sentido espiritual, o cristão compreende as coisas de modo diferente da percepção possível ao homem natural; é como a diferença entre simplesmente olhar para o mel e de fato experimentar sua doçura. É por isso que as Escrituras muitas vezes comparam a obra da regeneração pelo Espírito à aquisição de um novo sentido – visão para o cego, audição paia o surdo. Sendo esse sentido espiritual mais nobre e excelente do que qualquer outro, as Escrituras comparam sua concessão ao ressuscitar dos mortos e a uma nova criação.

Muitas pessoas confundem esse novo sentido espiritual com a imaginação, porém é bem diferente da imaginação. Imaginação é uma habilidade comum a todos; permite que tenhamos idéias de paisagens, sons, aromas e outras coisas quando estas não estão presentes. Ainda assim, as pessoas confundem imaginação com o sentido espiritual do seguinte modo: algumas pessoas têm idéias duma luz brilhante imprimida em suas imaginações. Elas chamam a isso de revelação espiritual da glória de Deus; outras têm idéias vigorosas de Cristo pendurado e sangrando na cruz; chamam a isso de visão espiritual de Cristo crucificado; alguns vêem Cristo sorrindo para eles, com Seus braços abertos para abraçá-los; chamam a isso de revelação da graça e do amor de Cristo; alguns têm idéias vívidas do céu, de Cristo ali em Seu trono e brilhantes hostes de anjos e santos; chamam a isso de visão do céu aberto para eles; outros têm idéias de sons e vozes, talvez citando as Escrituras para eles; chamam a isso de ouvir a voz de Cristo em seus corações, ou ter o testemunho do Espírito Santo.

Estas experiências, entretanto, não têm nelas nenhuma coisa de espiritual ou divina. São simplesmente idéias imaginárias ou coisas externas – uma luz, um homem, uma cruz, um trono, uma voz. Essas idéias imaginárias não são espirituais em sua natureza; um homem natural pode ter idéias vivas de formas e cores e sons. A ideia imaginária dum brilho externo e da glória de Deus não é melhor do que a ideia que milhões de incrédulos condenados receberão da glória externa de Cristo no dia do Juízo Final. Uma imagem mental de Cristo pendurado numa cruz não é melhor que aquilo que os judeus não espirituais tiveram, quando ficaram em volta da cruz e viram a Jesus com seus olhos físicos. Pensem sobre isso. Acaso o quadro de Jesus na imaginação seria melhor que a ideia que os católicos romanos conseguem ter de Cristo com suas pinturas e estátuas idólatras dEle? E seriam as emoções inspiradas por essas idéias imaginárias melhores que aquelas que os católicos ignorantes sentem quando adoram essas pinturas e estátuas?

Essas idéias imaginárias estão tão longe de ter natureza espiritual que satanás pode facilmente produzi-las. Se ele pode sugerir pensamentos aos homens, pode também sugerir imagens. Sabemos pelo Velho Testamento que falsos profetas tinham sonhos e visões vindo de falsos espíritos. Vejam Dt. 13:1-3; I Reis 22:21-23; Is. 28:7;Ez. 13:l-9;Zac. 13:2-4. E, se satanás pode imprimir essas ideias imaginárias na mente, então as mesmas não podem ser evidência da obra de Deus.

Ainda que Deus produzisse essas ideias na mente de alguém, isso não provaria coisa alguma sobre a salvação dessa pessoa. Isso está claro nas Escrituras pelo exemplo de Balaão. Deus imprimiu na mente de Balaão uma imagem clara e viva de Jesus Cristo como uma estrela surgindo de Jacó e o cetro surgindo de Israel. Balaão descreve essa experiência da seguinte forma: “palavra daquele que ouve os ditos de Deus, e sabe a ciência do Altíssimo; daquele que tem a visão do Todo–poderoso, e prostra-se, porém de olhos abertos; vê-lo-ei, mas não agora; contemplá-lo-ei, mas não de perto; uma estrela precederá de Jacó, de Israel subirá um cetro” (Num. 24:16-17). Balaão viu a Cristo numa visão, porém não tinha conhecimento espiritual dEle. Não era salvo, apesar da imagem do Salvador impressa por Deus em sua mente.

Emoções surgindo de ideias na imaginação não são espirituais. Emoções espirituais podem produzir essas idéias, especialmente em pessoas de mente enfraquecida, mas idéias na imaginação não podem produzir emoções espirituais. Emoções espirituais só podem surgir de causas espirituais – do Espírito Santo dando-nos compreensão da verdade espiritual. Entretanto, a ideia mental duma visão ou uma voz não é de natureza espiritual, algo que pode ser experimentado tanto por crentes como por incrédulos, uma vez que a imaginação é uma habilidade natural partilhada por todos. Ainda assim, não é de surpreender que idéias religiosas imaginárias muitas vezes despertem emoções naturais em alto grau. O que mais poderíamos esperar, quando a pessoa que tem essas idéias crê que são revelações e sinais do favor de Deus? É claro que ela fica excitada!

vineyardEste é um bom lugar para dizer algo sobre o testemunho ao nosso espírito, pelo Espírito Santo, de que somos filhos de Deus (Rom. 8:16). Muitos não compreendem isso, pelo que tenho percebido. Pensam que o testemunho do Espírito é uma revelação imediata do fato de que são filhos adotados de Deus. É como se Deus falasse ao íntimo deles, por um tipo de voz ou impressão secreta, assegurando-lhes que Ele é seu Pai.

É a palavra “testemunho” que engana essas pessoas a ponto de pensarem assim. Quando as Escrituras dizem que Deus “testifica com o nosso espírito”, elas supõem que deve significar que Deus assegura ou revela a verdade diretamente. Um olhar mais cuidadoso às Escrituras mostra que isso não é correto. Por “ser testemunha” ou “testificar”, o Novo Testamento muitas vezes quer dizer apresentar evidência da qual algo pode ser provado como sendo verdade. Por exemplo, em Hb. 2:4 lemos: “dando Deus testemunho juntamente com eles, por sinais, prodígios e vários milagres, e por distribuição do Espírito Santo segundo a Sua vontade.” Esses sinais, maravilhas, milagres e dons são chamados “testemunho de Deus”, não por serem assertivas, mas por serem evidências e provas. De novo, temos 1Jo. 5:8, quando João chama “a água e o sangue” de testemunha. A água e o sangue não afirmam coisa alguma, porém foram evidências. Mais uma vez, a obra da providência de Deus nas estações de chuva e frutos são “testemunho” da bondade de Deus, isto é, são evidências dessas coisas (At. 14:17).

Quando Paulo fala do Espírito Santo testificando com o nosso espírito que somos filhos de Deus, não quer dizer que o Espírito nos faz alguma sugestão ou revelação sobrenatural. Os versículos anteriores mostram o que Paulo quer dizer: “Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. Porque não recebestes o espírito da escravidão para viverdes outra vez atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai. O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus.” (Rom. 8:14-16). Isso significa que o Espírito Santo nos dá evidência de que somos filhos de Deus, por habitar em nós, dirigindo-nos e inclinando-nos a um comportamento para com Deus, tal como filhos para com um pai.

Paulo fala de dois espíritos, o espírito de escravidão, que é o medo; e o espírito de adoção, que é o amor. O espírito de escravidão opera pelo medo; o escravo teme a punição, entretanto o amor clama “Aba, Pai!” e permite que um homem vá até Deus e se comporte como filho dEle. Nesse amor filial por Deus, o crente vê e sente a união de sua alma com Ele. A partir disso tem segurança de ser filho de Deus. Assim, o testemunho do Espírito Santo não se trata de um sussurro espiritual ou revelação imediata. É o efeito santo do Espírito de Deus nos corações dos crentes, levando-os a amar a Deus, odiar o pecado e buscar a santidade. Ou, como Paulo o coloca: “Porque, se viverdes segundo a carne, caminhais para a morte; mas, se pelo espírito mortificardes os feitos do corpo, certamente vivereis” (Rom. 8:13).

Quando Paulo diz que o Espírito Santo testifica com nosso espírito, não quer dizer quefire-heart hajam duas testemunhas separadas e independentes. Quer dizer que recebemos pelo nosso espírito o testemunho do Espírito de Deus. Isto é, nosso espírito vê e declara a evidência de nossa adoção produzida pelo Espírito Santo em nós. Nosso espírito é a parte de nós que as Escrituras chamam, em outro lugar, de o coração (1 Jo. 3: 19-21) e de a consciência (II Cor. 1:12).

Dano terrível tem resultado do pensamento que o testemunho do Espírito Santo seja um tipo de voz interna, sugestão, ou declaração de Deus para um homem que ele é amado, perdoado, eleito, etc. Quantas emoções vigorosas, porém falsas, resultaram dessa ilusão! Receio que multidões tenham ido para o inferno iludidas por elas.

Jonathan Edwards (A Genuína Experiência Espiritual)

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