A Feira das Vaidades

pilgrims-progress-18“Meus filhos, tendes ouvido, na palavra da verdade do Evangelho, que, por muitas tribulações, entramos no reino de Deus, e que em cada cidade nos esperam prisões e perseguições. Deveis, portanto, esperar que no vosso caminho se vos deparem algumas destas coisas. Parte da verdade deste testemunho já vós tendes encontrado, e o restante não se fará esperar, porque, como vedes, estais quase fora deste deserto, em breve chegareis a uma idade onde sereis acometidos pelos inimigos, que se esforçarão por vos matar. Tendes por certo que um de vós, ou ambos, terá de selar o seu testemunho com o próprio sangue. Conservai-vos, porém, fiéis até à morte, e o Rei vos dará a coroa da vida.

O que ali morrer, ainda que a sua morte seja afrontosa e os seus sofrimentos atrozes, terá melhor sorte do que o seu companheiro, não só porque chegará mais depressa à Cidade Celestial, mas porque se livrará de muitas misérias que o outro ainda encontrará no resto da sua jornada. Quando chegardes à cidade que está próxima, e se cumprir o que vos tenho anunciado, lembrai-vos do vosso bom amigo. Portai-vos com valor, e encomendai a Deus as vossas almas (I Pedro 4:19).” (Evangelista)

Vi, então, no meu sonho que, apenas saíram do deserto, avistaram uma povoação chamada Vaidade, na qual se faz uma feira, conhecida pelo mesmo nome, que dura todo o ano.

 É assim chamada porque a cidade em que é celebrada é mais leviana do que a Vaidade, e porque tudo quanto ali se vende, e todos quantos a ela concorrem, são vaidade, pois, como disse o sábio – tudo vaidade (Eclesiastes 12:8; Isaías 13:17). Esta feira é muito antiga. Vou dizer-vos a história do seu princípio:

Há quase cinco mil anos já havia peregrinos que se dirigiam à Cidade Celestial como Cristão e Fiel. Vendo Belzebu, Apolião e legião, com seus companheiros, que pela direção que os peregrinos levavam, lhes era forçoso passar por esta cidade da Vaidade, combinaram entre si estabelecer aqui esta feira, que duraria todo o ano, e onde se venderia toda a espécie de vaidade. Por esta razão encontram-se na feira todas as mercadorias: casas, terras, negócios, empregos, honras, títulos, países, reinos, concupiscências, prazeres; e toda espécie de delícias, tais como, prostitutas, esposas, maridos, filhos, amos, criados, vida, sangue, corpos, alma, prata, ouro, pérolas, pedras preciosas e muitas outras coisas.

Também ali se encontram, constantemente, enganos, jogos, diversões, arlequins, teatros, divertimentos e tratantes de toda a qualidade. E não é só isso. Também ali há, gratuitamente, roubos, mortes, adultérios, perjúrios, falsos testemunhos de toda a classe de gravidade.

Christian and Faithful pass through Vanity Fair, resisting Superstition and Frivolity

 Como noutras feiras de menor importância, há nesta várias ruas e travessias, com nomes apropriados, destinadas todas a certas especialidades. Algumas dessas ruas são designadas pelos nomes de certos países. Assim, a rua de Espanha, de Itália, de França, de Inglaterra, de Alemanha, etc. Do mesmo modo que como em todas as outras feiras. […]

O caminho que conduz à Cidade Celestial passa mesmo pelo meio desta povoação, e aquele que quiser ir à Cidade Celestial, sem passar por aqui terá de sair do mundo (I Coríntios 5:10). Até o Príncipe dos príncipes, quando esteve no mundo, teve de passar por esta povoação antes de chegar ao seu próprio país; também esteve na feira que pertencia a Belzebu, segundo creio, o qual pessoalmente o convidou a comprar as suas vaidades, e não só isto; ainda chegou a oferecer-lhe tudo gratuitamente, se o Príncipe consentisse em fazer-lhe uma reverência ao passar pela povoação. Como era pessoa de alta categoria, levou-o belzebu a outras ruas, e mostrou-lhe todos os reinos do mundo, em um instante, tentando induzi-lo a comprar alguma das suas vaidades; mas não pôde consegui-lo, e o Príncipe saiu da cidade sem haver gasto um centavo (Mateus 4:8-10).

Esta feira é, pois, muito antiga e de muita importância.  Era forçoso que os peregrinos passassem por este sítio, e assim aconteceu, mas logo que sua presença foi notada, toda a gente da povoação se alvoroçou por sua causa. Eis a razão disso:

1.º – As vestes dos peregrinos eram muito diferentes dos que se vendiam na feira, e aquela gente cercava-os por todos os lados para os ver. Uns diziam que os peregrinos eram idiotas, outros que eram loucos, e outros que eram estrangeiros (Jó 12:4; I Coríntios 4:9).  

2.º – E, se muitos se admiravam das seus vestes, não menos se espantavam do seu modo de falar, porque poucos havia que pudessem entendê-los. Eles falavam o idioma de Canaã e a gente da feira falava a linguagem do mundo; de modo que uns aos outros se supunham bárbaros (I Coríntios 2:7-8).

 3.º – Mas o que mais assombrava os mercadores era que estes peregrinos faziam pouco caso das mercadorias, e nem se davam ao incômodo de olhar para elas. E, se alguém os chamava para comprarem, tapavam os ouvidos, e exclamavam: “Aparta os meus olhos para que não vejam a vaidade” (Salmos 119:37). E olhavam para cima, como para darem a entender que os seus negócios estavam no céu (Filipenses 3:20-21).

1-bunyan-pilgrims-progress-grangerUm dos da feira, querendo zombar destes homens, perguntou-lhes com insolência: Que queres comprar? E eles, encarando-o com muita seriedade, responderam: “Compramos a verdade” (Provérbios 23:23).

Esta resposta foi origem de novos desprezos. Uns mofavam deles: outros insultavam-nos, outros escarneciam-nos, e não faltava quem propusesse que fossem espancados. Enfim, as coisas chegaram a tal ponto que houve um grande tumulto na feira, alterando-se a ordem completamente. Chegando-se estes acontecimentos aos ouvidos do principal, acudiu este ao local dos tumultos, e encarregou alguns dos seus amigos mais fiéis de examinar aqueles que tinham dado causa aos distúrbios.

Foram os peregrinos interrogados e os seus juízes perguntaram-lhe donde vinham, para onde iam, e que faziam ali em trajes estranhos. – Somos peregrinos do mundo, responderam eles, e dirigimo-nos para a nossa pátria, que é a Jerusalém Celestial (Hebreus11:13-16). Não demos motivos aos habitantes da cidade, nem aos feirantes, para nos maltratarem desta maneira, nem para impedirem a nossa viagem: apenas respondemos aos que nos convidavam a comprar das suas mercadorias que só queríamos comprar a verdade.

Mas o tribunal declarou que estavam loucos, e que tinham vindo expressamente para perturbar a ordem pública. E por isso os prenderam, deram-lhe muita pancada, atiraram lama sobre eles, e meteram-nos numa gaiola para servirem de espetáculo a toda a gente que havia na feira. Nessa situação permaneceram por algum tempo, sendo o alvo do divertimento, da maldade ou da vingança dos circunstantes.

O geral ria-se de todos os insultos: outros, porém, mais observadores e mais despreocupados, vendo quanto os peregrinos eram pacientes e sofredores, que não retribuíam maldições com maldições, mas com bênçãos, e que respondiam com palavras mansas aos insultos e injúrias que lhes eram dirigidos, começaram a conter a multidão, e a repreendê-la pelos seus inqualificáveis e injustos abusos e desvarios.

Mas, o povo irritado, voltou-se contra estes, dizendo que eram tão bons como os que estavam na gaiola, e, manifestando suspeita de serem seus cúmplices, ameaçaram-nos com iguais castigos. Aqueles que tinham tomado a parte dos prisioneiros responderam, energicamente, que os peregrinos mostravam ser pessoas sérias e pacíficas; que a pessoa alguma faziam mal; e que havia na feira muitos vendedores que mais mereciam estar dentro da gaiola, e até serem postos no pelourinho, em vez daqueles desgraçados de quem tanto tinham abusado.

Assim se foram prolongando as contestações, até que finalmente chegaram as vias de fato, e muitos ficaram feridos. Tornaram então a levar os presos, que se haviam comportado com toda a sabedoria e temperança, à presença dos seus interrogadores, e perante estes os acusaram de haverem provocado o tumulto que tivera lugar. Espancaram-nos brutalmente, puseram-lhes algemas, e assim os passearam por toda a feira, para terror e escarmento dos demais, e para que ninguém tomasse a sua defesa nem com eles se juntasse.

celestialcity Cristão e Fiel portaram-se com grande prudência, e recebiam a vergonha e a ignomínia a que os expunham com paciência e mansidão, de modo que ganharam a simpatia de alguns feirantes, ainda que poucos, relativamente. Esta adesão exasperou, até ao último ponto, a parte contrária, que resolveu matar os peregrinos. Desde logo os ameaçaram de morte, dizendo-lhes que, visto não ser bastante a prisão, seriam condenados à pena última, pelo abuso cometido, e por terem enganado os da feira. Novamente os encerraram na gaiola, prendendo-os a um cepo, enquanto não se decidia definitivamente qual sorte lhes poderia ser destinada.

 Recordaram-se, então, os peregrinos do que lhes dissera Evangelista, e esta recordação veio predispô-los ainda mais para os sofrimentos e robustecer a sua constância. Também se consolavam mutuamente com a ideia de que, o que mais sofresse, melhor sorte havia de ter, pelo que ambos desejavam, no íntimo dos seus corações, ser o preferido, mas entregando-se sempre nas mãos d’Aquele que de tudo dispõe com altíssimo acerto e sabedoria.

Trecho retirado do livro O Peregrino (John Bunyan), de 1678.

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