A Terra Está Cheia de Violência

Pode-se ler esta notícia em jornais em português, em espanhol (La tierra está llena de violencia), em inglês (mark), em francês (La terre est pleine de violence), em italiano (La terra è piena di violenza) e em muitas outras línguas ao redor do mundo. É fato, salta aos olhos. O problema é antigo e moderno. É maior hoje em conseqüência do aumento da população do globo (de 1,6 bilhão para 6,3 bilhões nos últimos cem anos). É mais visível hoje por causa da eficiência e da velocidade dos meios de comunicação. É chocante porque os números da violência são assustadores, a começar com os massacres ocorridos em Ruanda em 1994 — quase 1 milhão de pessoas foram mortas nos conflitos promovidos por extremistas hutus contra a minoria tútsi.

Curioso é que a manchete “A terra está cheia de violência” aparece também na Bíblia (Gn 6.11). Refere-se ao mundo antediluviano, à sociedade contemporânea a Noé. Este casamento da violência de ontem com a violência de hoje é bastante oportuno. Pode ser uma chamada, um aviso, uma ameaça e também, quem sabe, uma oportunidade. É proveitoso relembrar o personagem central e os acontecimentos que se deram na parte habitada do planeta na época do dilúvio.

O homem notavelmente completo e de fé

O livro de Gênesis refere-se a Noé como “homem justo e íntegro entre o povo da sua época” e afirma que ele, à semelhança de seu bisavô Enoque, “andava com Deus” (Gn 5.22; 6.9). Mas o original hebraico diz mais do que isso. Daí a paráfrase da Bíblia Viva: “Noé era o único homem reto, de todos os que viviam naquele tempo. Ele procurava viver sempre de acordo com a vontade de Deus”. O comentarista Derek Kidner vai além e afirma que, “num mundo corrompido, Noé emerge como o melhor elemento de uma geração má [e] como um homem de Deus notavelmente completo” (Gênesis: Introdução e Comentário). O grande feito de Noé foi manter esse excelente comportamento em meio aos seus contemporâneos. Noé estava em um extremo e todos os demais estavam no extremo oposto. Antes de ser um sobrevivente do dilúvio, ele foi um sobrevivente da corrupção globalizada da sua geração. Ele vivia entre pessoas infectadas sem se contaminar.

A Epístola aos Hebreus ressalta uma qualidade de Noé que está explícita em Gênesis: “Pela fé Noé, quando avisado a respeito das coisas que ainda não se viam, movido por santo temor, construiu uma arca para salvar sua família” (Hb 11.7). Construir uma embarcação de três andares de 3.037,5 metros quadrados cada um, em terra seca, longe de rio ou mar, ao longo de 120 anos, sem nenhum registro histórico de inundação e antes de qualquer sinal visível de que tal coisa poderia acontecer, firmado unicamente na revelação de Deus — é um gesto de fé tão grande quanto o de Abraão ao se dispor a sacrificar o próprio filho na certeza de que Deus o ressuscitaria (Hb 11.17-19).

O pregador da justiça

Em sua Segunda Epístola (2.5), o apóstolo Pedro acrescentou mais um predicado a Noé, que não aparece em nenhuma outra parte da Bíblia. Ele o chama de “pregador da justiça” (A Bíblia de Jerusalém chama-o de “o arauto da justiça”). Outras versões são mais enfáticas: Noé era “a única voz que proclamava justiça” (J. B. Phillips), “o único homem que falava a favor de Deus” (BV) e “aquele que anunciou que todos deveriam obedecer a Deus” (NTLH).

Autores não bíblicos também registram essa faceta de Noé. É o caso de Flávio Josefonoé (primeiro século d.C.) e Clemente de Alexandria (segundo século d.C.). Os famosos Oráculos Sibelinos, lidos e citados por vários pais da igreja, também dizem que Noé era “mensageiro da justiça”.

A pregação de Noé ontem é a pregação do Espírito Santo hoje: “Quando ele [o Espírito] vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo” (Jo 16.8). Não é fácil convencer uma maioria esmagadora do pecado globalizado, arraigado e contumaz. Mas a pregação não é só para provocar uma eventual mudança de idéia a respeito do pecado e de Deus. É também para questionar, desmascarar, estabelecer a culpabilidade, condenar, arrancar da alma humana o último pingo de justiça própria. Se tivesse medo de falar contra a perversidade, a corrupção e a violência, e a favor da santidade, da soberania e do juízo de Deus, Noé teria fracassado.

Sem dúvida, Noé foi alvo de zombaria e de piadas da parte de seus contemporâneos. Até hoje há quem o ridiculariza, como o poeta brasileiro Oswald de Andrade (1890-1954), chamando-o de “diretor do circo zoológico flutuante que percorreu o mundo à toa e acabou se dispersando por falta de público” (Dicionário de Bolso).

A pregação de Noé era tríplice: ele pregava por meio de seu estilo de vida (era justo e íntegro), por meio da construção da arca (levava Deus a sério) e por meio da palavra (não se calava). Nas duas primeiras vias, a pregação de Noé era captada visualmente; na terceira, era captada audivelmente. Quando se tratava das coisas de Deus, os contemporâneos de Noé tinham olhos, mas não enxergavam; tinham ouvidos, mas não ouviam. É por isso que a Epístola aos Hebreus afirma categoricamente que, “por meio da fé, ele [Noé] condenou o mundo” (11.7). Simon Kistemaker lembra que “a construção de uma embarcação em terra seca ofereceu muitas oportunidades de se pregar a justiça aos habitantes perversos do mundo”, mas ninguém deu ouvidos ao “arauto da justiça”. Curiosamente, centenas de anos mais tarde, outro pregoeiro da justiça foi enviado por Deus a uma grande cidade cuja maldade havia subido à sua presença, para convencer seus habitantes do pecado, da justiça e do juízo iminente. E o resultado foi totalmente diferente daquele da pregação de Noé: “Os ninivitas creram em Deus. […] E todos eles, do maior ao menor, vestiram-se de pano de saco” (Jn 3.5)!

A maior inundação de todos os tempos

O dilúvio de que falam as Escrituras Sagradas (Gn 6–9) e outros escritos sumérios e babilônicos de fato aconteceu. Não se sabe ao certo a ocasião em que se deu nem se foi um fenômeno regional ou universal. Teria acontecido muitos anos antes da chamada de Abraão, ocorrida mais de dois mil anos antes de Cristo.

noahs-arkA maior enchente de que se tem notícia foi provocada de baixo para cima (“todas as fontes das grandes profundezas jorraram”), e de cima para baixo (“e as comportas do céu se abriram”). É provável que tenha havido um terremoto e o fundo dos oceanos tenham se elevado. Toda a água levantada do mar se encontrou com toda a água de quarenta dias e quarenta noites de chuva ininterrupta. Teria havido uma inversão do que aconteceu no segundo dia da criação, quando “Deus fez o firmamento [o céu] e separou as águas que ficaram abaixo do firmamento das que ficaram por cima” (Gn 1.7).

As águas do dilúvio “subiram até quase sete metros acima das montanhas” e fizeram desaparecer todos os animais e todos os seres humanos, exceto aqueles que foram abrigados na famosa e não lendária arca de Noé (Gn 7.20-23). A inundação prevaleceu 150 dias sobre a terra e o escoamento de tão grande volume de água durou outros 150 dias (Gn 7.24; 8.3). Ao todo, o tempo passado na arca foi superior a um ano (377 dias).

A arca de Noé tinha fundo achatado e media 135 metros de comprimento, 22,5 de largura e 13,5 de altura. Tais dimensões poderiam provocar um deslocamento de 43.300 toneladas. Havia três andares (ou conveses), o superior, o médio e o inferior, divididos em compartimentos (alguns dos quais deveriam ser os camarotes dos oito sobreviventes, que eram ao mesmo tempo tripulantes e passageiros). Depois da incrível borrasca, a embarcação pousou na região montanhosa de Ararate, entre o mar Cáspio e o mar Negro, na atual Turquia, a cerca de 800 quilômetros de seu ponto de partida, talvez sobre o pico mais alto das montanhas, coberto de gelo, a 5.600 metros acima do nível do mar (Gn 8.4).

A história do dilúvio ocupa quatro capítulos do primeiro livro da Bíblia. É mencionada por Jesus como lembrete da vigilância contínua no discurso sobre a inesperada vinda do Filho do Homem (Mt 24.38; Lc 17.26). As outras referências estão na Epístola aos Hebreus (11.7) e nas Epístolas de Pedro (1 Pe 3.20; 2 Pe 2.5).

O dilúvio não é apenas um registro histórico. É uma palavra profética para o mundo de hoje, tão cheio de violência e tão sujeito ao juízo de Deus como o mundo do tempo de Noé.

Revista Ultimato – Maio-Junho 2007

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