Nossa relação com nós mesmos | John Sttot

Leitura: Romanos (12:3-8)

igreja peçasA ligação entre o apelo geral de Paulo (versículos 1-2) e o ensino específico que veremos agora (3-8) parece ser o papel da mente no discipulado cristão. Nossa mente renovada, que é capaz de discernir e aprovar a vontade de Deus, deve funcionar também para avaliar a nós mesmos, nossa identidade e nossos dons. Afinal, precisamos saber quem somos, ter uma autoimagem acurada, equilibrada e sobretudo moderada. Uma mente renovada é humilde como a mente de Cristo.

A fórmula utilizada por Paulo para introduzir a sua exortação para que o crente pense com moderação é incrivelmente solene. Ela “tem um toque imperativo”. Pois pela graça que me foi dada digo a todos vocês… (3a). “Eu lhes digo” faz-nos lembrar a expressão predileta de Jesus, mesmo sem o “Amém” ou o “Em verdade, em verdade” que geralmente a precedia. Paulo dirige-se aos seus leitores romanos (a cada um deles, enfatiza) consciente da autoridade que lhe cabe como apóstolo de Cristo. Pois a graça que me foi dada (a qual qualifica para escrever assim) deve ser uma referência ao fato de ter sido designado para ser apóstolo; aliás, ele sempre atribuía essa designação à graça de Deus (por exemplo, em 1.5, “graça e apostolado”; ver também 15.15ss.).

É esta a mensagem que o apóstolo tem para eles: Ninguém tenha de si mesmo um conceito mais elevado do que deve ter; mas, pelo contrário, tenha um conceito equilibrado (3b). No original grego, Paulo repete quatro vezes o verbo phronein, “pensar”, o que torna inequívoca a ênfase pretendida. Quando pensamos em nós mesmos, devemos evitar tanto uma estimativa alta demais como (Paulo poderia ter acrescentado) uma avaliação demasiado baixa acerca de nossa pessoa. Pelo contrário, e de forma positiva, devemos desenvolver um conceito equilibrado. Como? Primeiro com referência a nossa fé e depois com referência aos nossos dons.

A frase de acordo com a medida da fé que Deus lhe concedeu (3c) é um ponto crucial epuzzle-thumb-300x300 bastante conhecido. C. E. B. Cranfield, com a eficácia costumeira que o caracteriza, diz que a palavra “medida” teria sete significados possíveis, “fé” teria cinco e “de” teria dois, o que resultaria, ao todo, em setenta combinações possíveis! A questão central é se metron (“medida”) significa aqui um instrumento para medir ou uma quantidade medida de alguma coisa. Sendo esta última a possibilidade correta, como muitos pensam, a ideia seria a de que Deus dá a diferentes cristãos uma porção variável de fé, e, por ser uma designação divina, isso os manterá humildes. Só que o professor Cranfield tem alguns argumentos estabelecidos: que metron, aqui, significa “um padrão pelo qual medimos a nós mesmos”; que este é o mesmo para todos os cristãos, a saber, a fé salvadora no Cristo crucificado; e que só esse evangelho da cruz, ou melhor, somente “o próprio Cristo em quem o juízo e a misericórdia de Deus são revelados” pode capacitar-nos a medir a nós mesmos com moderação.

Se o evangelho de Deus é a primeira medida segundo a qual deveríamos avaliar-nos, a segunda medida são os dons de Deus. Para reforçar isso, Paulo esboça uma analogia entre o corpo humano e a comunidade cristã. Assim como cada um de nós tem um corpo com muitos membros e esses membros não exercem todos a mesma função (4), embora (pelo que está implícito) as diferentes funções sejam necessárias para a saúde e enriquecimento do todo, assim também em Cristo, pela nossa união comum com ele, nós, que somos muitos, formamos um corpo (5a).

Embora Paulo não chegue a dizer que nós “somos o corpo de Cristo”, como faz em 1 Coríntios 12.27, ainda assim sua asserção de que nós somos “um corpo em Cristo” deve ter tido implicações enormes para a multiétnica comunidade cristã de Roma. Como um só corpo, cada membro faz parte de todos os outros (5b). Isto é, nós dependemos uns dos outros, e essa mutualidade da fraternidade cristã é enriquecida pela diversidade dos nossos dons.

John Sttot – A Mensagem de Romanos (Série A Bíblia é para Todos)

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