O Inferno é para os Covardes | Guilherme de Carvalho

Gollum-Smeagol2“O inferno começa com um humor ranzinza, sempre queixoso, sempre imputando culpa aos outros… mas você ainda se encontra apartado disso. Pode mesmo criticar tal comportamento e querer livrar-se dele. No entanto, talvez chegue o dia em que isso jã não seja possível. Então, não existirá mais esse VOCÊ para criticar seu humor ruim ou mesmo para aprová-lo, restando apenas os queixumes, repetidos indefinidamente como uma máquina.

Não se trata de ‘sermos mandados’ por Deus para o inferno. Em cada um de nós algo está crescendo, que virá a SER o INFERNO, a menos que o cortemos pela raiz” (C. S. Lewis)

A explicação que Lewis dá para o inferno coloca vários descrentes que conheço na berlinda (nem todos). E vários religiosos também (alguma surpresa?).

Ou melhor: o inferno já está neles; já estão queimando por dentro. Mais ou menos como o “gollum” de Tolkien: celebrando solitariamente a certeza de que o mundo é vazio e sem esperança, de que não há inocência, nem verdade, nem justiça; dizendo “my dear, my love” a si mesmos o tempo todo em solilóquios intermináveis, rasgando sua carne com cacos de telha e zombando cinicamente dos ingênuos que ainda tem esperança.

Ou, como eu disse em outra ocasião, rindo da alegria inocente de quem sofreu pouco, e suspeitando da alegria serena de quem sofreu muito mas insiste em ter esperança.

Pensam ser honestos, sábios, realistas, maduros e livres da ilusão, celebrando com poesia e inspiração o seu desespero; mas não passam de pessoas medrosas, que desistiram de tentar a alegria, para não correr o risco da tristeza. Afinal, resmungar com estilo ainda é… resmungar. “Super-homens” como o Raskolnikov de Dostoievski: adoram recontar os gloriosos feitos de um Napoleão, mas nada podem além de matar velhas ranzinzas, ou ao menos matar-lhes o sentido de viver.

E mesmo assim, sofrem como qualquer homem sob a carga da sua culpa. A culpa de fechar os olhos para a graça onipresente, de prender a respiração para o oxigênio que deseja encher os seus pulmões.

Mas insistem, e matam o sentido e a esperança. Pelo bem maior da humanidade ou, mais plausivelmente, para manter todos juntos… no mesmo inferno. Por isso o inferno é para os covardes, segundo o livro de Apocalipse. Para os covardes, os ressentidos, os cínicos, os amargurados; para “o Diabo e seus anjos”.

Mas esse golpe final do desespero será eternamente inútil. Ninguém chorará no seu túmulo de amargura cósmica – nem mesmo Deus. Os amargos estarão ocupados demais cozinhando eternamente suas próprias revoltas… e os alegres estarão ocupados demais contemplando a luz.

Mas não tem que ser assim. Não há razões suficientes, filosóficas ou não, para mergulhar no meon, pois o “não-ser” não é; mas nós, inexplicavelmente, somos. A dádiva nos rodeia, nos penetra e nos sustenta.

Sim, existe ar suficiente em torno de mim e de você! Pare de resumungar e respire, seu covarde. Tenha esperança, seu Übermensch fracassado. É só levantar os olhos para os céus e dizer: “muito obrigado”!

Guilherme de Carvalho – Pastor na Igreja Esperança e Diretor no L’Abri Fellowship Brasil

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