Zumbis e o Evangelho | Russell D. Moore

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Uma vez por ano, na cidade onde eu moro agora, há o que é conhecido como um “Zombie Walk“. Nesta noite, as pessoas (normalmente jovens moradores da cidade) se vestem como os “mortos vivos” da tradição de horror e arrastam-se com as mãos estendidas, gemendo, como um enxame, juntos, pelas ruas da cidade. Um jovem cristão que viu isso me disse que era a coisa mais próxima do que ele imaginava ser o inferno.

Eu pensei sobre os “zombie walkers” nesta manhã, enquanto lia um artigo do autor Chuck Klosterman, no New York Times, sobre a razão de os zumbis darem a volta por cima na cultura popular americana. Klosterman argumenta que as histórias de zumbis representam, para muitos americanos contemporâneos, “alegorias para como eles percebem a sua existência no dia-a-dia.”

A grande verdade sobre zumbis, ele argumenta, é que mesmo mortos como eles são, eles continuam vindo. Assim que você “mata” um homem morto, há outro logo atrás dele. “Em outras palavras, matar zumbis é filosoficamente semelhante a ler e eliminar 400 e-mails de trabalho em uma manhã de segunda-feira, ou preencher uma papelada que só gera mais papelada, ou seguir fofocas de Twitter por obrigação, ou realizar tarefas tediosas em que o único risco real é ser consumido pela avalanche”.

Claramente, há algo sobre os zumbis que ressoa com a imaginação popular atual. Não são apenas zumbis retornando em filme de terror, mas eles estão por toda parte na ficção popular, desde romances de guerra apocalíptica de zumbis até as adaptações dos clássicos da ficção com os mortos-vivos (“Orgulho e Preconceito e Zumbis“, baseado na obra “Orgulho e Preconceito”, de Jane Austen, é um exemplo). O próximo lançamento dos jogos de vídeo game terá Richard Nixon, entre várias pessoas, como um caçador de zumbis.

Eu acho que há mais do que cenário sobrecarregado descrito por Klosterman. O zumbi representa o que significa sentir-se morto-vivo e, ainda assim, incapaz de parar. Isso é, no fundo, uma condição espiritual, antes de ser sociológica.

Aqueles familiarizados com a história cristã sabem que o pecado humano original trouxe uma sentença de morte. O que muitas vezes não se nota é que essa pena de morte foi radicalmente graciosa. Após se juntar à serpente em sua rebelião contra Deus, o homem e a mulher estavam espiritualmente separados da vida com Deus. Eles foram mortos. Deus os exilou fora do Jardim do Éden não porque ele era maldoso com eles, mas para levá-los para longe do meio designado para manter as suas vidas, a Árvore da Vida. Deus enviou a humanidade pecadora para fora do santuário já que “não se deve, pois, permitir que ele tome também do fruto da árvore da vida e o coma, e viva para sempre” (Gênesis 3.22).

Afastados da árvore da vida, a rebelião de Adão e Eva terminaria finalmente em morte. Com o passar de cada geração de pecadores, havia a esperança de um novo começo, um recomeço que viria definitivamente quando uma nova raiz da vida humana surgiu, o Filho nascido de uma virgem, Filho de Eva.

Ao longo da história bíblica, porém, existem aqueles que acham que a morte é o único problema. Os Evangelhos nos falam, por exemplo, daqueles que perguntam a Jesus sobre como a “herdar a vida eterna” (Mateus 19.16; Lucas 10.25). Jesus responde apontando o caminho para a vida. Muitas vezes, deixando seus interlocutores perplexos e decepcionados (Mt 19:21-22; Lc 10:37).

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Essa é a grande questão de todo o evangelho. A boa notícia não é apenas o fugir do fim da existência. Pior que isso é uma vida em curso presa em morte espiritual. Isso não é vida. Viver como uma criatura morta, dirigida por desejos demoníacos (Ef 2:1-3) é mais parecido com um zumbi do que a vida abundante prometida no evangelho. Afinal, em nosso pecado, é isso que nós éramos: cadáveres ambulantes que viviam apenas para alimentar nossos apetites.

Talvez por isso tão poucos são persuadidos pelos nossos apelos para a vida eterna. Para alguns, a própria ideia de vida eterna é a coisa mais desanimadora a se imaginar. E por boas razões. Eles são, como nós estávamos, o mortos-vivos. O evangelho é a promessa da vida eterna, mas só depois da promessa da morte.

Em Cristo, somos, crucificados e sepultados. Nosso corpo morto-vivo é finalmente posto para descansar. E então, em Cristo, somos elevados, não apenas à continuação da vida, mas à “vida nova” (Romanos 6.4), para uma “nova criação” (2 Coríntios 5.17).

Na próxima vez que você vir um romance de zumbis na prateleira da livraria, ou na próxima vez que você passar por um anúncio de algum filme de zumbis sangrentos, pare e ore por aqueles que se sentem como mortos-vivos.

E lembre-se que esta já foi a sua história de vida. Você estava morto para a fonte da vida. Você estava andando por uma força motriz que te consumia mais e mais, e que nunca poderia dar-lhe vida. E não havia fim à vista. “Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, quando ainda estávamos mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo” (Efésios 2.5).

Tradução: Rafael Bello | original aqui.

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A tolerância que Jesus não tolera | Kevin DeYoung

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Cristãos não devem ser tolerantes com tudo, uma vez que Deus não o é. Nós podemos respeitar opiniões diferentes e tentar entendê-las, mas não devemos afirmar incondicionalmente e sem avaliação toda crença e comportamento, por que Deus não faz isso. Nós devemos amar o que Deus ama. Foi aí que Éfeso falhou. E devemos odiar o que Deus odiou. Aí que Tiatira falhou.

Das sete cidades de Apocalipse, Tiatira é a menos conhecida, a menos impressionante e a menos importante. E, ainda assim, é a maior carta das sete. Havia muita coisa acontecendo nessa igreja – algumas ruins e outras boas.

Vamos começar com as boas. O verso 19 do capítulo 2 diz: “Conheço as tuas obras, o teu amor, a tua fé, o teu serviço, a tua perseverança e as tuas últimas obras, mais numerosas do que as primeiras”. Éfeso foi louvada por suas benfeitorias e seu forte trabalho ético. Tiatira é ainda melhor. Ela tinha os mesmo feitos que Éfeso teve e o amor que faltou a esta. A igreja em Tiatira não era sem virtudes genuínas. Era um grupo unido que amava, servia, cria e perseverava.

Talvez Tiatira fosse o tipo de igreja que você entra e já se sente parte: “Prazer em conhecê-lo. Venha, deixa-me apresentá-lo aos meus amigos. Vou lhe mostrar como você pode participar, usar seus dons, seguir seu ministério. Somos muito gratos de tê-lo conosco.” Era uma igreja que se importava, que se sacrificava e amava.

Essa era a parte boa. E a parte ruim? O amor dela podia ser sem discernimento e cegamente afirmativo. O grande problema de Tiatira era a tolerância. As pessoas de lá toleravam falsos ensinamentos e comportamentos imorais, duas coisas com as quais Deus é ferozmente intolerante. Jesus diz: “você é amorosa de diversas formas, mas a sua tolerância não é amor. É infidelidade.”

O pecado específico de Tiatira era a tolerância com Jezabel. Este não era o nome real da mulher. Mas essa falta profetisa agia como Jezabel – guiando o povo em adultério e em idolatria. Nós não sabemos se sua influência era formal – se ela ia à frente das pessoas e falava esse tipo de coisa enganosa – ou se era informal – em conversas corriqueiras e no “boca a boca”. Contudo, isso estava acontecendo. Essa mulher era um perigo espiritual, como sua xará do Antigo Testamento.

Jezabel foi a filha de Etbaal, rei dos sidônios. Ela adorava Baal e Aserá e levou seu marido Acabe para o mesmo caminho. Foi ela quem planejou matar o inocente Nabote por causa de sua vinha. Ela foi chamada de “maldita” (2 Reis 9.34) e, como punição por sua malícia, eventualmente foi empurrada pela janela, pisoteada por cavalos e comida por cachorros. Ela era uma mulher má, que levou muitos israelitas para o mau caminho.

Jesus disse a Tiatira: “vocês estão permitindo que uma mulher como aquela guie seu povo. Por que vocês a toleram? Não a sigam. Não dialoguem com ela. Não esperem para ver o que vai acontecer. Livrem-se dela… ou eu farei.” Aparentemente, de alguma forma, Deus já a havia alertado para que se arrependesse, mas ela se negou. Então, agora, o Senhor Jesus promete jogá-la na cama doente e fazer com que seus seguidores também sofram, a não ser que se arrependam. “Eu vou atacar mortalmente os seus filhos espirituais”, disse o Senhor. Jesus não está brincando. Isso não é algo secundário, mas um sério pecado digno de morte.

Havia também um pecado arraigado. Havia uma série de cooperativas comerciais em Tiatira. Imagine que você participasse da festaAPT, a Associação de Pedreiros de Tiatira, e, certa noite, a corporação se reunisse para uma festa. Você está sentado em sua mesa, pronto para participar dessa grande celebração com seus amigos e colegas. Então o anfitrião diz algo como: “Que bom que vocês vieram. Que ocasião feliz para a APT. Nós temos uma grande festa preparada para vocês. Mas, antes de começar, nós gostaríamos de reconhecer que o grande deus Zeus, que cuida dos pedreiros, tornou esse jantar possível. Zeus, cuja estátua está ali no canto, nós comemos por você, por sua honra e para adorá-lo. Vamos começar.”

O que você faria nessa situação? Ficaria ou iria embora? O que a sua participação significaria para seus companheiros cristãos, para o mundo e para Deus? Cristãos do mundo antigo não precisavam procurar por idolatria. Ela permeava toda a sua cultura. Não participar desses rituais pagãos chamaria a atenção como um torcedor do Corinthians no Palestra Itália. Essas festas, com sua idolatria e folia sexual, que muitas vezes as seguiam, eram parte normal da vida do mundo Greco-romano. Ficar de fora poderia ser algo social e economicamente desastroso.

Esse é o motivo pelo qual os falsos mestres, como essa Jezabel em Tiatira ou os nicolaítas em Pérgamo, eram tão ouvidos. Eles tornavam o ser cristão em algo muito mais fácil, menos custoso e muito menos contracultural. Mas era um cristianismo diluído e vendito, e Jesus não iria tolerá-lo. Ele iria usar Tiatira como exemplo para mostrar a todas as igrejas que Jesus tem olhos de fogo, puros demais para ver o mal, e pés de bronze polido, santos demais para caminhar entre a maldade. Ele queria que todas as igrejas soubessem que ele é quem perscruta as mentes e corações e que irá punir todo mal não arrependido.

O erro de Jezabel era um pecado sério, arraigado e sutil. Provavelmente ela havia dito às pessoas que os “segredos profundos” não iriam prejudicá-los. Nós não sabemos exatamente o que aprender os chamados segredos profundos de Satanás significava para a igreja. Nós não sabemos se os falsos profetas chamavam eles assim ou se Jesus é quem os está chamando assim. Mas o que está acontecendo é, provavelmente, algum tipo de falso ensinamento que desvalorizava o mundo material. Essa Jezabel poderia estar falando: “O mundo físico não importa. O espiritual é o que conta. Então participem das festas aos ídolos e façam o que vocês quiserem sexualmente. Essas coisas são materiais. Deus não liga para isso”. Ou talvez ela estivesse falando: “Veja, se você é espiritual, então a sua relação com Deus será forte o suficiente para você aguentar as coisas profundas de Satanás. Então vá em frente. Participe das coisas do diabo. Você pode lidar com isso e, além disso, provavelmente aprenderá mais sobre sobre o inimigo durante o processo.” Independentemente do que ela estivesse falando, era uma mentira e estava levando o povo ao pecado. E a igreja era mais tolerante do que Jesus, o que nunca é uma boa ideia.

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Traduzido por Victor Bimbato | Reforma21.org | Original aqui

Cristão, você está pronto para a Segunda Fase do Exílio? | Stephen McAlpine

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A igreja ocidental está prestes a entrar na Segunda Fase do seu exílio da praça pública e da cultura em geral. E não serão tempos fáceis.

Caso você não tenha notado, a Primeira Fase do Exílio começou há algumas décadas, florescendo na revolução sexual dos anos 60 antes de ganhar força uns vinte anos atrás. Finalmente, alguns cristãos se reuniram para abordar o assunto há mais ou menos quinze anos – e isso gerou uma movimentação, assim como várias publicações.

Para aqueles no ministério que, como eu, observam a cultura em geral, a Primeira Fase do Exílio foi uma época intoxicante. Porém, nós nunca a chamamos de Primeira Fase do Exílio. Simplesmente a chamamos de “Exílio”, e nos debruçamos sobre textos bíblicos como o livro exílico de Daniel e 1 Pedro, sua contrapartida neotestamentária. Afinal, ninguém jamais chamou a Primeira Guerra Mundial de “Primeira Guerra Mundial” antes de surgir a Segunda Guerra Mundial, não é? Ela era conhecida simplesmente como a Grande Guerra. Assim também é com o exílio. Cafeterias foram dominadas para conversas matinais entre líderes exílicos em ascensão, os bares foram usados como uma igreja exílica, Macbooks foram comprados aos montes e pioneiros emergentes/missionais estabeleceram a qualidade do café como um marcador de uma fronteira espiritual com um zelo que levaria um adepto do Judaísmo do Segundo Templo às lágrimas pelo reconhecimento.

Na Primeira Fase do Exílio, a narrativa predominante era que a igreja Cristã estava sendo marginalizada, que a Cristandade acabou; a igreja precisava bolar novas estratégias; tirar tudo que não fosse essencial, tudo com o objetivo de reconectar Jesus ao mundo perdido. Éramos todos adeptos do ad fontes, uma segunda Reforma se voltando para a fonte Eclesiástica – esperamos que estivessem usando a Bíblia – ou no mínimo os Pais da Igreja Primitiva, ou no mínimo um monte de velas(calma aí – diz o sarcástico).

O maior problema da igreja, de acordo com o pensamento da Primeira Fase do Exílio, é que mais ninguém estava falando da gente. E como Oscar Wilde ironicamente observou, a única coisa pior do que alguém falar sobre você é quando ninguém fala sobre você. Então, na Primeira Fase do Exílio as conferências e as conversas em destaque estavam ocupadas falando sobre como era não ser o alvo das conversas dos outros. Fomos marginalizados; deixados do lado de fora das salas interessantes; fomos abandonados à velocidade de nós por hora; descartados. Somente algumas poucas pessoas perceptivas viram isso acontecendo. Quantas? Bem, provavelmente não mais que as que estão neste salão conosco, e talvez alguns outros que se encontram um domingo a cada três ou quatro semanas numa igreja reunida em um bar.

Aliás, inclusive, todos que estavam citando Lesslie Newbigin, ou pelo menos a única fala que eles conheciam a respeito da congregação ser a hermenêutica do Evangelho ou algo do tipo. Todos estavam discutindo o que queria dizer ter convicções cristãs, mas ser pós-fundamentalista. A Cristandade estava caindo, e isso é bom, dadas as diversas lutas e cruzadas e tudo de ruim que os sacerdotes fizeram, certo? Não estávamos fartos de sermos meros capelães para a cultura? Hora de nos atualizarmos. Hora de sermos a igreja orgânica/integral/do outro lado/radical. Para aqueles que aderiram à Primeira Fase do Exílio, havia uma alegria pela queda da Cristandade. E se ela estivesse sobrevivendo em algumas áreas da América do Norte, e daí? Quem é que quer ser um “batistão” mesmo, uma vez que uísque single malt e um bom charuto são tão deliciosos, e tudo mais?

Estou sendo um pouco jocoso, sei disso, e de certa forma tenho o direito para tanto. Me envolvi nesse processo da Primeira Fase do Exílio e isso tem informado boa parte da minha forma de pensar, e isso não mudará. Eu também conheci pessoas incríveis, pensadores criativos e teólogos que merecem ser ouvidos e lidos.

Mas aqui está o problema. A forma de pensar da Primeira Fase do Exílio tem feito com que o Cristão esteja completamente despreparado para a realidade da Segunda Fase. Houve uma série de suposições feitas pelos pensadores da Primeira Fase que não se alinharam com aquilo que vai resultar das próximas três ou mais décadas, de acordo com o exemplo dos últimos cinco anos. Deixe-me mapear algumas dessas suposições errôneas:

1. Supomos Atenas, não Babilônia

Para toda a conversa sobre exílio, a linguagem de Atenas, e a necessidade de achar uma voz numa cultura de ideias que competem entre si, era bem mais predominante que a linguagem da verdadeira cidade de exílio, Babilônia. Nós explorávamos maneiras de lidar com o desinteresse da cultura por nós, e não o seu desprezo. Lembro bem de ter dito “As pessoas não estão passando pela sua igreja e dizendo ‘Se eu nunca fora a uma igreja, é nesta que nunca entrarei.’ Não, eles não a enxergam de maneira alguma.” Esse é o discurso de Atenas, e supõe que se ao menos conseguirmos mostrar um ponto de encontro com a cultura, então a conversa fluirá e nos entenderemos.

Eu mudei minha ideia nesse ponto. Se os últimos cinco ou seis anos servem como indicador, a cultura (leia-se: a estrutura de elite que guia a cultura) está cada vez mais interessada em trazer a igreja de volta à praça pública. Sim, você ouviu direito. Mas não para dar-lhe ouvidos, e sim, para esfolá-la, expor seus reais e supostos abusos e deixá-la nua e trêmula ante a uma multidão ensandecida e escarnecedora. É Sadraque, Mesaque e Abede-Nego de pé perante a estátua de ouro, enquanto todos à sua volta estão submetendo-se e dizendo “Pssst, curvem-se, pelo amor de Deus!” São oficiais conspirando com o rei para mostrar que o fato de Daniel orar em direção a Jerusalém três vezes ao dia não é simplesmente uma esperança arcaica e tola, mas uma real ameaça à estrutura da sociedade e à nova ordem moral que a manterá de pé.

“Se os últimos cinco ou seis anos servem como indicador, a cultura (leia-se: a estrutura de elite que guia a cultura) está cada vez mais interessada em trazer a igreja de volta à praça pública. Sim, você ouviu direito. Mas não para dar-lhe ouvidos, e sim, para esfolá-la, expor seus reais e supostos abusos e deixá-la nua e trêmula ante a uma multidão ensandecida e escarnecedora.”

Se a principal característica da Primeira Fase do Exílio era para ser a humildade, a principal característica da Segunda Fase do Exílio tem que ser a coragem. Coragem não significa pronunciamentos bombásticos para o mundo, de maneira alguma. Ela tem que ser muita mais profunda que isso. Significa que, ao ouvirmos a ordem do rei de que ninguém deverá orar a deus algum salvo o rei por trinta dias, que nós entremos nos nossos quartos com a janela aberta em direção a Jerusalém e desafiemos esse rei mesmo enquanto nossos acusadores nos caçam. Significa olhar na cara desse rei irado dizendo que mesmo que nosso Deus não nos resgate das chamas, nós não serviremos aos seus deuses ou nos curvaremos ante a sua estátua de ouro. Diferente de Atenas, a Babilônia não tem interesse em nos superar com argumentos sagazes, mas simplesmente nos derrotar. Apologética e novas maneiras de se praticar igreja não serão suficientes na Babilônia. Somente a coragem sob fogo servirá.

2. Pressupomos uma cultura neutra, não um mundo hostil

Quantas conferências/artigos/livros surgiram nos últimos anos lidando com o conceito de cultura? Quantas vezes ouvimos que o papel do cristão exilado é fazer uma diferença na cultura? De que seja envolvido numa igreja ou não, a verdadeira mudança do Reino haveria de acontecer na cultura? Busque no Google as palavras “cultura” e “Cristão”. Dê uma olhada.

Enquanto eu admiro diversos desses trabalhos e devo muito a observadores culturais excepcionalmente dotados, foi Scott McKnight, sempre impressionante, que soou a trombeta no seu último livro Kingdom Conspiracy; Returning to the Radical Mission of the Local Church (“Conspiração do Reino: Retornando à radical missão da igreja local”, livremente traduzido, sem versão publicada em português). Ele acerta na mosca ao apontar a ingenuidade do que ele chama de “o povo do jeans skinny” quanto à natureza da cultura ao redor. Ele diz:

“Nossos esforços de transformação da cultura não só obtiveram pouco resultado (exceto no papel), mas esta palavra ‘cultura’ parece ter substituído na Bíblia a palavra ‘mundo’ (ênfase minha). Dito mais explicitamente, basta jogar uma água batismal no ‘mundo’ e nós agora podemos chamá-lo de ‘cultura’. Nesse sentido, ‘cultura’ se torna os elementos redimidos do mundo, mas isentos de suas conotações de mundo. Por quê dizer isso? Porque a palavra ‘mundo’ não soa nada bem no Novo Testamento.” (p.16)

Ele segue listando uma série de textos do evangelho de João em que o mundo está ligado a outras palavras. Palavras como “trevas”, “abaixo”, “ódio” e por aí vai. McKnight segue com o ponto de que Jesus não veio para tornar o mundo um lugar melhor, e sim redimir pessoas para fora dele, e que tentar fazer do mundo um lugar melhor é, de fato, “uma espécie de mundanismo”.

Agora, eu reconheço que toda esse linguagem de um ou outro em relação a “mundanismo” é anátema para muitos de nós que cresceram numa fé fundamentalista que tentou nos impedir de engajar o mundo – especialmente aqueles que, como eu, eram criativos, porque as “artes” não eram apenas “as artes”, e sim as “artes negras” na terra dos fundamentalistas. Lembro bem de ter dito para a minha avó do norte da Irlanda – chamados de irmãos a meia voz – que eu queria ser um jornalista quando crescesse. “Mas por que você quer fazer algo tão mundano?” ela perguntou, antes de me oferecer bolo demais e uma xícara de chá fraco.

Muitos de nós, desgastados pelas cicatrizes das guerras fundamentalistas e do pensamento coletivo contido, impulsionamos o pensamento da Primeira Fase do Exílio justamente para fugir dessa falsa dicotomia. Mas o neném do McKnight não deve ser jogado fora com a água do batismo. A criação é boa, mas foi corrompida; ela retrata um grande Deus, mas é o palco para toda sorte de depravação impiedosa. McKnight cita o saudoso e tragicamente mundano teólogo John Howard Yodder que chamava o mundo de “descrença estruturada, levando consigo um fragmento do que deveria ser a Ordem do Reino”.

E então, qual é a questão? Se pressupomos uma cultura neutra, supomos que podemos nos envolver com ela e brincar com a cultura sem sermos infectados por ela; que nós somos capazes de nos mantermos distintos dela, sem sermos compelidos pelas partes mais doentias e mais que capazes de saber quando dizer não para o seu clamor de aceno sedutor e foco branco que diz “Junte-se a nós! Junte-se a nós!”.(Game of Thrones, alguém? Netflix, sarcástico)

Simplesmente, presumimos que nós podemos ter mais impacto na cultura que ela pode ter sobre nós. Esse é um pensamento perigosamente ingênuo. Jesus nunca disse que a cultura não nos entenderá, ele disse que o mundo nos odiará. Ele não disse aos seus discípulos, “Sejam destemidamente despreocupados e vão e transformem a cultura”, ele disse “tenham ânimo! Eu venci o mundo.” (João 16.33)

“… presumimos que nós podemos ter mais impacto na cultura que ela pode ter sobre nós. Esse é um pensamento perigosamente ingênuo. Jesus nunca disse que a cultura não nos entenderá, ele disse que o mundo nos odiará.”

Como tenho visto isso se desenvolver nos últimos dez anos? Tragicamente, de várias maneiras. Enquanto algum bem surgiu disso, eu vi um número excessivo de evangélicos desgastados que estão fartos da onda de brigas entre fundamentalistas dizendo que temos que voltar às fontes do Evangelho pelo bem da cultura, até uma reinterpretação do Evangelho que se amolde ao mundo. Eu tenho assistido a todo uma onda que começou como uma série de perguntas que foi iniciada com “E se nós mudássemos a nossa perspectiva em relação a como enxergamos esta questão tradicional?” até “Deus realmente disse?”. E por mais que me doa dizer, o Evangelho da Sexualidade do Pós-Evangelicalismo simplesmente tomou o lugar do crescente Evangelho da Prosperidade que idolatra o conforto que a experiência oferece, em vez do conforto que o dinheiro traz.

O resultado? Cada vez mais a Primeira Fase do Exílio sai de cena. O Pós-Evangelicalismo/Pós-Fundamentalismo levou pessoas demais em direção ao Pós-Cristianismo, fornecendo um pouso seguro para aqueles que quiseram pular do avião, mas que tinham medo de altura. Eu direi mais a respeito disso num outro post, mas esse é o mesmo resumo disso.

3. Afrouxamos a nossa linguagem justamente quando as elites culturais afiaram a sua

Há um livro inteiro a respeito disso, mas por hora basta dizer que muitos dos proponentes da Primeira Fase do Exílio estavam ocupados soltando os parafusos das rodas da sua linguagem justamente enquanto a estrutura cultural estava afiando a sua. E não há prêmio para quem adivinhar quem perdeu as suas rodas! Para usar outra metáfora, se falharmos em apreciar e usar a linguagem da nossa aljava, então alguém vai saqueá-la e usá-la contra nós. Cultivamos uma meia geração de literatura cristã completamente segura da sua incerteza no que se refere às terminologias. Enquanto isso, a estrutura cultural está cada vez mais certa das suas terminologias.

Um ótimo exemplo se refere às questões de ética pública. Uma igreja que afrouxou toda a sua linguagem com o intuito de alcançar a cultura – descartando as categorias que lhes foram dadas pela teologia testada pelo tempo – está de repente encontrando suas próprias terminologias e formas de pensamentos usadas contra ela, e ela está incerta sobre como responder. Agora, quando falamos de ética sexual, não é somente uma questão de que o Cristianismo tem perspectivas “estranhas” ou “esquisitas” ou até “interessantes”, mas em vez disso são “erradas”, “ruins”, “obscuras”, até posturas “pecaminosas”. Leia as páginas de opinião.

O campo semântico de “herege” irá cada vez mais vir à tona na Segunda Fase do Exílio ao descrever o Cristianismo tradicional. Agora, não estou dizendo que é o papel da igreja admoestar a cultura, não é, porque o principal e crítico lugar onde a igreja afrouxou os parafusos da linguagem foi justamente dentro da igreja! Os proponentes da Primeira Fase do Exílio frequentemente criticavam as Megaigrejas sedentas por crescimento explosivo pelo seu abandono da linguagem teológica para alcançar uma cultura indiferente e consumista. Mas a sua crítica não chegava a pegar do chão essa linguagem, tirar a poeira dela e usá-la novamente. Se fizeram alguma coisa, foi agravar o erro desses megalomaníacos de deslocar a linguagem teológica ao desconfiar da linguagem teológica (o novo público Reformado é uma exceção). Sucatear as categorias da linguagem foi um erro crucial. Se o nosso Deus é um Deus que fala, então a linguagem é profundamente teológica e profundamente moral. Não é mero brinquedo deixar isso de lado quando perde a graça. Nós a usamos ou a perdemos – para outros.

Agora, essa perda vai lhe surpreender se a sua categoria de cidade for Atenas, mas não se for Babilônia. Ouça o que Pedro diz às comunidades exílicas espalhadas pelo Império Romano:

“Amados, insisto em que, como estrangeiros e peregrinos no mundo, vocês se abstenham dos desejos carnais que guerreiam contra a alma. Vivam entre os pagãos de maneira exemplar para que, naquilo em que eles os acusam de praticarem o mal, observem as boas obras que vocês praticam e glorifiquem a Deus no dia da sua intervenção.” (1 Pedro 2.11,12)

O Império Romano via os cristãos primitivos como ruins. Pense nisso. Por décadas na Austrália, os cristãos eram tidos de maneira pejorativa como os “certinhos”. Na Segunda Fase do Exílio a forma pejorativa é os “erradinhos”.

Este é o mesmo Pedro que, aliás, pode dizer no próximo versículo “sujeitem-se a toda autoridade constituída entre os homens, seja ao rei, como autoridade suprema, seja aos governantes…” Isso não é para os fracos de coração. Precisamos estar aptos para navegar por campos minados da linguagem sem perder as pernas. E isso vai requerer trabalho árduo. Declarações raivosas – a ira dos culturalmente impotentes – não é uma opção, tampouco é a entrega das nossas categorias de pensamento e linguagem para a cultura. Precisamos aprender a verdade ao poder, assim como fui ensinando na minha formação em Artes nos anos 80, mas dessa vez os papéis foram invertidos. O que era marginal nas universidades dos anos 80 agora é a linguagem política geral comum do século XXI.

Ontem mesmo eu observei uma discussão nas mídias sociais em que um secularista convicto estava mais que feliz de usar categorias de pensamento como “de dentro/de fora”, “pecador/santo”, “heresia/verdade”, “deus/diabo” ao defender a sua posição. Ao se deparar com a falta de linguagem própria para descrever a sua anátema da posição cristã, ele simplesmente disse “Não dê a mínima para mim!”, inclinou-se até o nosso lado e tomou a nossa! E aqui estamos tendo o maior cuidado para que ninguém seja excluído pela nossa linguagem.

Uma linguagem pessoal, pietista, que diz “Jesus é meu brother” com uma teologia leve não se sustenta face a uma reformulação pública de linguagem. Os proponentes da Primeira Fase do Exílio têm que resgatar o arsenal, sacar o amolador e afiar as ferramentas da linguagem novamente, não para matar pessoas, mas para “batalhar pela fé uma vez por todas confiada aos santos” (Judas 1.3).

E o que Judas segue dizendo? Ele usa a linguagem e as terminologias que até no uso privado nos envergonha, e que provavelmente não são para o público em geral:

“Todavia, amados, lembrem-se do que foi predito pelos apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo. Eles diziam a vocês: ‘Nos últimos tempos haverá zombadores que seguirão os seus próprios desejos ímpios’. Estes são os que causam divisões entre vocês, os quais seguem a tendência da sua própria alma e não têm o Espírito. Edifiquem-se, porém, amados, na santíssima fé que vocês têm, orando no Espírito Santo. Mantenham-se no amor de Deus, enquanto esperam que a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo os leve para a vida eterna. Tenham compaixão daqueles que duvidam; a outros, salvem-nos, arrebatando-os do fogo; a outros ainda, mostrem misericórdia com temor, odiando até a roupa contaminada pela carne.” (Judas 1.17-23)

(Aliás, não há nada aqui referente a protestos na frente do parlamento).

A carta de Judas é linguagem exílica verdadeira, sem filtros. Ela é sem filtros justamente porque seus leitores nunca haviam experimentado o desinteresse suave da Primeira Fase do Exílio trazido à tona pelo eclipse da Cristandade. Eles foram odiados a partir do momento em que Jesus foi pregado no madeiro, mas continuaram lutando pela fé e pela vivência piedosa nas suas comunidades e o amor a Deus e ao próximo apesar de tudo.

É isso que devemos resgatar. Os exilados da Segunda Fase não colocam a sua esperança numa cidade aqui, seja Atenas ou Babilônia, mas numa cidade que está por vir (Hebreus 13). Os exilados da Segunda Fase não precisam de aprovação da cultura, muito menos provocam a cultura para se sentirem bem sobre si mesmos. Não, os verdadeiros exilados são capazes de viver seu tempo com confiança, amor e esperança porque eles confiam naquele “que é poderoso para impedi-los de cair e para apresentá-los diante da sua glória sem mácula e com grande alegria” (Judas 1.24).

Cristão, a Segunda Fase do Exílio está vindo. Você está pronto?

Stephen McAlpine é pastor e plantador da Providence Church em Perth, Austrália. Ele é formado em jornalismo e teologia e escreve um blog sobre questões referentes a cultura e plantação de igrejas no oeste da Austrália. Você pode acompanhar seus escritos pelo seu blog: http://stephenmcalpine.com/ 

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O Inferno é para os Covardes | Guilherme de Carvalho

Gollum-Smeagol2“O inferno começa com um humor ranzinza, sempre queixoso, sempre imputando culpa aos outros… mas você ainda se encontra apartado disso. Pode mesmo criticar tal comportamento e querer livrar-se dele. No entanto, talvez chegue o dia em que isso jã não seja possível. Então, não existirá mais esse VOCÊ para criticar seu humor ruim ou mesmo para aprová-lo, restando apenas os queixumes, repetidos indefinidamente como uma máquina.

Não se trata de ‘sermos mandados’ por Deus para o inferno. Em cada um de nós algo está crescendo, que virá a SER o INFERNO, a menos que o cortemos pela raiz” (C. S. Lewis)

A explicação que Lewis dá para o inferno coloca vários descrentes que conheço na berlinda (nem todos). E vários religiosos também (alguma surpresa?).

Ou melhor: o inferno já está neles; já estão queimando por dentro. Mais ou menos como o “gollum” de Tolkien: celebrando solitariamente a certeza de que o mundo é vazio e semesperança, de que não há inocência, nem verdade, nem justiça; dizendo “my dear, my love” a si mesmos o tempo todo em solilóquios intermináveis, rasgando sua carne com cacos de telha e zombando cinicamente dos ingênuos que ainda tem esperança.

Ou, como eu disse em outra ocasião, rindo da alegria inocente de quem sofreu pouco, e suspeitando da alegria serena de quem sofreu muito mas insiste em ter esperança.

Pensam ser honestos, sábios, realistas, maduros e livres da ilusão, celebrando com poesia e inspiração o seu desespero; mas não passam de pessoas medrosas, que desistiram de tentar a alegria, para não correr o risco da tristeza. Afinal, resmungar com estilo ainda é… resmungar. “Super-homens” como o Raskolnikov de Dostoievski: adoram recontar os gloriosos feitos de um Napoleão, mas nada podem além de matar velhas ranzinzas, ou ao menos matar-lhes o sentido de viver.

E mesmo assim, sofrem como qualquer homem sob a carga da sua culpa. A culpa de fechar os olhos para a graça onipresente, de prender a respiração para o oxigênio que deseja encher os seus pulmões.

Mas insistem, e matam o sentido e a esperança. Pelo bem maior da humanidade ou, mais plausivelmente, para manter todos juntos… no mesmo inferno. Por isso o inferno é para os covardes, segundo o livro de Apocalipse. Para os covardes, os ressentidos, os cínicos, os amargurados; para “o Diabo e seus anjos”.

Mas esse golpe final do desespero será eternamente inútil. Ninguém chorará no seu túmulo de amargura cósmica – nem mesmo Deus. Os amargos estarão ocupados demais cozinhando eternamente suas próprias revoltas… e os alegres estarão ocupados demais contemplando a luz.

Mas não tem que ser assim. Não há razões suficientes, filosóficas ou não, para mergulhar no meon, pois o “não-ser” não é; mas nós, inexplicavelmente, somos. A dádiva nos rodeia, nos penetra e nos sustenta.

Sim, existe ar suficiente em torno de mim e de você! Pare de resumungar e respire, seu covarde. Tenha esperança, seu Übermensch fracassado. É só levantar os olhos para os céus e dizer: “muito obrigado”!

Guilherme de Carvalho – Pastor na Igreja Esperança e Diretor no L’Abri Fellowship Brasil

Nós somos todos Cristãos do Iraque

2003: 1.5 milhões de Cristãos no Iraque

2013: 150.000 a 300.000 Cristãos no Iraque

Junho de 2014: os Cristãos fogem em massa das cidades controladas pelos jihadistas do ISIS 

Em apenas alguns dias, entre o dia 5 e o dia 10 de Junho, a província do Nínive e a cidade de Mossul, a segunda maior cidade do Iraque, está nas mãos dos homens do ISIS (Estado Islâmico do Iraque e do Levante).

Em resultado dos combates, calcula-se que mais de 500 mil pessoas tenham tentado fugir perante a chegada de rebeldes jihadistas que desejam impor a lei islâmica no país. O grupo islâmico que controla Mossul é uma das mais radicais organizações sunitas e já dominam diversas regiões da Síria que está a atravessar uma tenebrosa guerra civil.

O mundo viu, chocado, a fuga, em menos de 48 horas, de quase meio milhão de pessoas. A fuga, apressada, deixou estes milhares de refugiados no mais completo abandono.

 “N” de nazareno 

Somos todos cristãos iraquianos! Pela primeira vez em dois mil anos Mossul não tem um único cristão. Os cristãos iraquianos tiveram de escolher entre a morte e o exílio após o ultimato do EI. Antes de obrigar a escolher entre a conversão imposta, a fuga ou a morte, os extremistas islâmicos marcaram todas as casas dos cristãos com o símbolo ن , muitas vezes escrito com um círculo.

Nun (ن), é a 14ª letra do alfabeto árabe e equivale ao N, no nosso alfabeto. É a primeira letra da palavra ‘Nazarenos’, que os muçulmanos usam desde o Séc. VII para se referirem aos cristãos. Esta letra do alfabeto árabe, tem sido pintada na fachada das casas pertencentes a cristãos, e na fachada das casas xiitas, a letra ‘R’, que significa Rwafidh (protestantes ou aqueles que rejeitam).

Hoje, a segunda maior cidade do Iraque, já não tem cristãos! A fuga apressada, deixou milhares de refugiados no mais completo abandono. Perderam tudo!

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A Feira das Vaidades

pilgrims-progress-18“Meus filhos, tendes ouvido, na palavra da verdade do Evangelho, que, por muitas tribulações, entramos no reino de Deus, e que em cada cidade nos esperam prisões e perseguições. Deveis, portanto, esperar que no vosso caminho se vos deparem algumas destas coisas. Parte da verdade deste testemunho já vós tendes encontrado, e o restante não se fará esperar, porque, como vedes, estais quase fora deste deserto, em breve chegareis a uma idade onde sereis acometidos pelos inimigos, que se esforçarão por vos matar. Tendes por certo que um de vós, ou ambos, terá de selar o seu testemunho com o próprio sangue. Conservai-vos, porém, fiéis até à morte, e o Rei vos dará a coroa da vida.

O que ali morrer, ainda que a sua morte seja afrontosa e os seus sofrimentos atrozes, terá melhor sorte do que o seu companheiro, não só porque chegará mais depressa à Cidade Celestial, mas porque se livrará de muitas misérias que o outro ainda encontrará no resto da sua jornada. Quando chegardes à cidade que está próxima, e se cumprir o que vos tenho anunciado, lembrai-vos do vosso bom amigo. Portai-vos com valor, e encomendai a Deus as vossas almas (I Pedro 4:19).” (Evangelista)

Vi, então, no meu sonho que, apenas saíram do deserto, avistaram uma povoação chamada Vaidade, na qual se faz uma feira, conhecida pelo mesmo nome, que dura todo o ano.

 É assim chamada porque a cidade em que é celebrada é mais leviana do que a Vaidade, e porque tudo quanto ali se vende, e todos quantos a ela concorrem, são vaidade, pois, como disse o sábio – tudo vaidade (Eclesiastes 12:8; Isaías 13:17). Esta feira é muito antiga. Vou dizer-vos a história do seu princípio:

Há quase cinco mil anos já havia peregrinos que se dirigiam à Cidade Celestial como Cristão e Fiel. Vendo Belzebu, Apolião e legião, com seus companheiros, que pela direção que os peregrinos levavam, lhes era forçoso passar por esta cidade da Vaidade, combinaram entre si estabelecer aqui esta feira, que duraria todo o ano, e onde se venderia toda a espécie de vaidade. Por esta razão encontram-se na feira todas as mercadorias: casas, terras, negócios, empregos, honras, títulos, países, reinos, concupiscências, prazeres; e toda espécie de delícias, tais como, prostitutas, esposas, maridos, filhos, amos, criados, vida, sangue, corpos, alma, prata, ouro, pérolas, pedras preciosas e muitas outras coisas.

Também ali se encontram, constantemente, enganos, jogos, diversões, arlequins, teatros, divertimentos e tratantes de toda a qualidade. E não é só isso. Também ali há, gratuitamente, roubos, mortes, adultérios, perjúrios, falsos testemunhos de toda a classe de gravidade.

Christian and Faithful pass through Vanity Fair, resisting Superstition and Frivolity

 Como noutras feiras de menor importância, há nesta várias ruas e travessias, com nomes apropriados, destinadas todas a certas especialidades. Algumas dessas ruas são designadas pelos nomes de certos países. Assim, a rua de Espanha, de Itália, de França, de Inglaterra, de Alemanha, etc. Do mesmo modo que como em todas as outras feiras. […]

O caminho que conduz à Cidade Celestial passa mesmo pelo meio desta povoação, e aquele que quiser ir à Cidade Celestial, sem passar por aqui terá de sair do mundo (I Coríntios 5:10). Até o Príncipe dos príncipes, quando esteve no mundo, teve de passar por esta povoação antes de chegar ao seu próprio país; também esteve na feira que pertencia a Belzebu, segundo creio, o qual pessoalmente o convidou a comprar as suas vaidades, e não só isto; ainda chegou a oferecer-lhe tudo gratuitamente, se o Príncipe consentisse em fazer-lhe uma reverência ao passar pela povoação. Como era pessoa de alta categoria, levou-o belzebu a outras ruas, e mostrou-lhe todos os reinos do mundo, em um instante, tentando induzi-lo a comprar alguma das suas vaidades; mas não pôde consegui-lo, e o Príncipe saiu da cidade sem haver gasto um centavo (Mateus 4:8-10).

Esta feira é, pois, muito antiga e de muita importância.  Era forçoso que os peregrinos passassem por este sítio, e assim aconteceu, mas logo que sua presença foi notada, toda a gente da povoação se alvoroçou por sua causa. Eis a razão disso:

1.º – As vestes dos peregrinos eram muito diferentes dos que se vendiam na feira, e aquela gente cercava-os por todos os lados para os ver. Uns diziam que os peregrinos eram idiotas, outros que eram loucos, e outros que eram estrangeiros (Jó 12:4; I Coríntios 4:9).  

2.º – E, se muitos se admiravam das seus vestes, não menos se espantavam do seu modo de falar, porque poucos havia que pudessem entendê-los. Eles falavam o idioma de Canaã e a gente da feira falava a linguagem do mundo; de modo que uns aos outros se supunham bárbaros (I Coríntios 2:7-8).

 3.º – Mas o que mais assombrava os mercadores era que estes peregrinos faziam pouco caso das mercadorias, e nem se davam ao incômodo de olhar para elas. E, se alguém os chamava para comprarem, tapavam os ouvidos, e exclamavam: “Aparta os meus olhos para que não vejam a vaidade” (Salmos 119:37). E olhavam para cima, como para darem a entender que os seus negócios estavam no céu (Filipenses 3:20-21).

1-bunyan-pilgrims-progress-grangerUm dos da feira, querendo zombar destes homens, perguntou-lhes com insolência: Que queres comprar? E eles, encarando-o com muita seriedade, responderam: “Compramos a verdade” (Provérbios 23:23).

Esta resposta foi origem de novos desprezos. Uns mofavam deles: outros insultavam-nos, outros escarneciam-nos, e não faltava quem propusesse que fossem espancados. Enfim, as coisas chegaram a tal ponto que houve um grande tumulto na feira, alterando-se a ordem completamente. Chegando-se estes acontecimentos aos ouvidos do principal, acudiu este ao local dos tumultos, e encarregou alguns dos seus amigos mais fiéis de examinar aqueles que tinham dado causa aos distúrbios.

Foram os peregrinos interrogados e os seus juízes perguntaram-lhe donde vinham, para onde iam, e que faziam ali em trajes estranhos. – Somos peregrinos do mundo, responderam eles, e dirigimo-nos para a nossa pátria, que é a Jerusalém Celestial (Hebreus11:13-16). Não demos motivos aos habitantes da cidade, nem aos feirantes, para nos maltratarem desta maneira, nem para impedirem a nossa viagem: apenas respondemos aos que nos convidavam a comprar das suas mercadorias que só queríamos comprar a verdade.

Mas o tribunal declarou que estavam loucos, e que tinham vindo expressamente para perturbar a ordem pública. E por isso os prenderam, deram-lhe muita pancada, atiraram lama sobre eles, e meteram-nos numa gaiola para servirem de espetáculo a toda a gente que havia na feira. Nessa situação permaneceram por algum tempo, sendo o alvo do divertimento, da maldade ou da vingança dos circunstantes.

O geral ria-se de todos os insultos: outros, porém, mais observadores e mais despreocupados, vendo quanto os peregrinos eram pacientes e sofredores, que não retribuíam maldições com maldições, mas com bênçãos, e que respondiam com palavras mansas aos insultos e injúrias que lhes eram dirigidos, começaram a conter a multidão, e a repreendê-la pelos seus inqualificáveis e injustos abusos e desvarios.

Mas, o povo irritado, voltou-se contra estes, dizendo que eram tão bons como os que estavam na gaiola, e, manifestando suspeita de serem seus cúmplices, ameaçaram-nos com iguais castigos. Aqueles que tinham tomado a parte dos prisioneiros responderam, energicamente, que os peregrinos mostravam ser pessoas sérias e pacíficas; que a pessoa alguma faziam mal; e que havia na feira muitos vendedores que mais mereciam estar dentro da gaiola, e até serem postos no pelourinho, em vez daqueles desgraçados de quem tanto tinham abusado.

Assim se foram prolongando as contestações, até que finalmente chegaram as vias de fato, e muitos ficaram feridos. Tornaram então a levar os presos, que se haviam comportado com toda a sabedoria e temperança, à presença dos seus interrogadores, e perante estes os acusaram de haverem provocado o tumulto que tivera lugar. Espancaram-nos brutalmente, puseram-lhes algemas, e assim os passearam por toda a feira, para terror e escarmento dos demais, e para que ninguém tomasse a sua defesa nem com eles se juntasse.

celestialcity Cristão e Fiel portaram-se com grande prudência, e recebiam a vergonha e a ignomínia a que os expunham com paciência e mansidão, de modo que ganharam a simpatia de alguns feirantes, ainda que poucos, relativamente. Esta adesão exasperou, até ao último ponto, a parte contrária, que resolveu matar os peregrinos. Desde logo os ameaçaram de morte, dizendo-lhes que, visto não ser bastante a prisão, seriam condenados à pena última, pelo abuso cometido, e por terem enganado os da feira. Novamente os encerraram na gaiola, prendendo-os a um cepo, enquanto não se decidia definitivamente qual sorte lhes poderia ser destinada.

 Recordaram-se, então, os peregrinos do que lhes dissera Evangelista, e esta recordação veio predispô-los ainda mais para os sofrimentos e robustecer a sua constância. Também se consolavam mutuamente com a ideia de que, o que mais sofresse, melhor sorte havia de ter, pelo que ambos desejavam, no íntimo dos seus corações, ser o preferido, mas entregando-se sempre nas mãos d’Aquele que de tudo dispõe com altíssimo acerto e sabedoria.

Trecho retirado do livro O Peregrino (John Bunyan), de 1678.

Cinco Mitos sobre o Inferno #5

Mito #5: O Inferno É Para Pessoas Más.  

Este é o mais perigoso de todos os mitos sobre o inferno. “O inferno é para pessoas más”. É claro, este é bem complicado, e depende do que nós queremos dizer quando falamos “pessoas más”. Na minha experiência, “pessoas más” simplesmente significa “outras pessoas”. Pessoas que fizeram pior do que nós, pelo menos de acordo com nossa estimativa. O inferno é para os maus, os piores que nós, os piores de todos. O inferno é para Hitler e Sadam Hussain, John Wayne Gacey (assassino em série americano) ou Kim Jong-il. Não é para nós, pessoas normais. Boas pessoas. O ponto em que nós devemos concordar com este mito é que o inferno é para pessoas más. E todos nós somos “maus”.

Jesus disse que ninguém é bom, a não ser Deus (Lucas 18:19). O apóstolo Paulo escreveu que ninguém é justo, todos viraram as costas para Deus e se tornaram inúteis (Romanos 3:10-18). Sim, nós somos todos maus e merecedores da condenação eterna. Enquanto uma mulher pode ser pior que uma outra em suas práticas, ou o pecado de um homem pode ser mais hediondo do que o pecado de um outro, nós somos todos igualmente pecadores e somos desesperadamente necessitados da misericórdia de Deus.

O inferno é para pessoas más, se por “pessoas más” nós estamos nos referindo a pessoas como nós. Nossa esperança não é que nós vamos nos tornar pessoas boas, ou mesmo pessoas melhores. Nossa confiança diante de Deus não é que nós iremos de alguma forma nos levantar em meio às pessoas más do mundo. Nossa esperança e confiança diante de Deus é que o evangelho – as boas novas de que todos os que crêem em Jesus são unidos com ele, considerados justos nele, e perdoados de todo pecado, por meio dele.

Então, em um certo sentido, o inferno é para pessoas más, mas em outro sentido, o céu também é. O primeiro recebe aqueles que rejeitaram a verdade de Deus, enquanto o segundo recebe aqueles que receberam Jesus (João 1:12-13).

Joe Thorn

Fonte: Iprodigo